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Aorta Comunitária: Cultivo de hortas na cidade

por tatiana.barros
em 4 de agosto de 2017

Inspirar a consciência das pessoas sobre a origem do que consomem e despertar o desejo de cultivar alimentos. Esse é o principal objetivo da Aorta Comunitária, projeto criado por Gabriela Nalon, 33, há quase três anos, na cidade de São Paulo. A proposta é espalhar tambores com hortas pela cidade, que podem ser usufruídas pelos moradores.

O que é a Aorta Comunitária

A relação da fundadora com o cultivo está em seu DNA, pois sua família é produtora de alimentos orgânicos. “Cresci nesse ambiente e sempre foi uma referência muito forte na minha vida, mas nunca tinha me interessado pelo assunto”.

Até que, com o nascimento de sua segunda filha, Gabriela sentiu vontade de ter uma horta para uso da família. Mas havia um problema: a luz do sol em sua casa não era suficiente. Gabriela, então, resolveu fazer o plantio na calçada mesmo, no bairro Jardim Europa. A pequena horta logo começou a gerar curiosidade entre os vizinhos. “Com isso, várias pessoas começaram a pedir que eu plantasse em frente a casa delas. Foi tudo muito espontâneo. Um tempo depois, um designer de joias me chamou para fazer uma horta na praça em frente à sua loja”, lembra.

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Com esse convite, Gabriela desenvolveu a Aorta Comunitária, que promove o cultivo de hortas em tambores, em diferentes pontos da cidade. No final de 2016, o projeto já contava 40 pontos de plantação. Atualmente, 80% do projeto é feito com investimento próprio e de sua sócia Marina e o restante vem de outras pessoas que acreditam no projeto. “Fizemos uma pesquisa sobre como engajar as pessoas para fazer o cultivo nos tambores”, conta. “Descobrimos que, na verdade, inspiramos essas pessoas muito mais do que engajamos por meio da nossa plantação. Elas veem e, se quiserem, sem pressão, participam também”.

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Foto: Divulgação

Para instalar os tambores pela cidade, Gabriela precisa de uma autorização prévia da prefeitura, para a qual é necessário estar de acordo com leis e regras de acessibilidade e circulação. Além disso, o tambor tem que ser instalado em um lugar que receba entre cinco e seis horas de sol por dia.

Divulgação

Para inspirar mais gente, a Aorta Comunitária lançou um canal no Youtube, com vídeos que ensinam como fazer os cultivos, já que as sócias perceberam que muitas pessoas têm dúvidas sobre o tema. Recentemente, elas lançaram a terceira temporada, focada nas hortaliças.

Gabriela também promove workshops e cursos, especialmente para crianças, o seu maior público. “É muito legal ver a conexão delas com a natureza. Em um minuto, já estão totalmente envolvidas. Percebemos que até as mais hiperativas conseguem focar em todo o processo. E é lindo presenciar a alegria dos pequenos diante daquela sementinha germinando.”

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Foto: Divulgação

Mas não são apenas as crianças que encontram o prazer na plantação caseira. Outra geração muito mais experiente também curte – e muito – esse contato com a terra. “Faço muitos eventos com idosos. Essas pessoas viveram uma época em que o espaço onde cresceram ainda era rural. O cultivo é uma oportunidade de se reconectar com essa essência.”

Entre essas duas faixas etárias, Gabriela vê um grande interesse da geração Millenium, formada por jovens de 20 e poucos anos, que demonstram consciência cada vez maior em relação ao planeta e ao que consomem.

Transformação por meio do cultivo

Para Gabriela, colocar a mão na terra e ajudar uma planta a nascer e a se desenvolver é uma forma de se conectar com o que é essencial. Nesse sentido, o projeto lhe proporcionou uma grande transformação pessoal. “Muita coisa começou a fazer sentido para mim depois que comecei a cultivar. Foi como plantar uma sementinha dentro de mim, algo que me preencheu.”

A mudança foi tão profunda que a levou a deixar a capital paulista e se mudar para Ilhabela, no litoral norte do estado. “O lugar faz com que eu e minhas filhas tenhamos uma conexão integral com a natureza”, justifica. No amplo espaço de sua nova casa, é grande a variedade de vegetais cultivados em família. São colhidos para consumo próprio morango, temperos, alface, couve, pepino, pimentão, cenoura, batata-doce, mandioca, melancia, entre outros.

O contato tão intenso com a natureza fez com que a alimentação consciente ganhasse mais espaço na vida de Gabriela. Um exemplo que costuma mencionar é em relação ao consumo de morangos, comprados em feiras e mercados: “Eu preciso mesmo consumir uma bandeja de morango no fondue? Sei quanto tempo leva para colher aquelas frutas e prefiro consumir outras que disponíveis em abundância, como a banana”.

Mais do que isso, ela acredita que o corpo é o maior instrumento do ser humano e ter consciência do que se ingere é essencial. “Em casa, consideramos a importância das fibras e de todos os nutrientes, mesmo que a tentação de comer besteiras seja grande”, explica. “Quando vamos ao mercado, buscamos alimentos integrais e produzidos por marcas em que confiamos e de que sabemos o processo de cultivo, como é o caso da Jasmine”.

É claro que tamanha consciência está diretamente ligada às hortas que Gabriela cultiva. “Quando comecei, não tinha noção do quanto isso transformaria a mim e a forma que vejo a questão do consumo.” Se o objetivo inicial era buscar praticidade, o de hoje é ter e sugerir reflexões sobre consumo sustentável e consciente. “Quanto mais a gente consumir aquilo que está perto, melhor é para o planeta. É nisso que eu acredito. Quanto menos consumo desenfreado, menos impacto e desgaste.”


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